Por Marina Roveda
Ao dar uma olhada na galeria do seu celular, é provável que você se depare com uma infinidade de imagens que vão muito além de simples recordações de viagens e encontros com amigos. Documentos, telas de produtos que você deseja, anotações e, claro, uma série de momentos que, em sua maioria, podem nunca mais ser revisitados.
A prática de registrar tudo se tornou tão comum que muitas vezes não paramos para refletir sobre o porquê disso. Estamos apenas buscando recordações ou tentando combater o temor de esquecer?
A psiquiatra e psicoterapeuta Renata Covre, que também é fotógrafa e trabalha na Hapvida, traz uma perspectiva interessante sobre esse comportamento sob o prisma da saúde mental. Segundo ela, mais relevante do que saber quantas fotos uma pessoa tira, é compreender o papel que essas imagens desempenham em sua vida.
“Fotografar em si não é um problema. Hoje, a câmera do celular atua como uma memória extra. O que chama a atenção é quando essa prática deixa de ser uma escolha e se transforma em uma necessidade”, esclarece.
A fotografia como alívio
Registrar momentos pode ser uma atividade saudável, especialmente quando está ligada ao trabalho ou a um hobby. O alerta, no entanto, surge quando deixar de fotografar provoca desconforto ou ansiedade, como se algo ruim pudesse acontecer.
“Se a intenção é guardar uma lembrança, tudo bem. Mas se a pessoa sente que precisa fotografar para aliviar uma ansiedade, pensando que, se não registrar, algo negativo poderá ocorrer, a situação já é diferente”, pondera Renata.
Ela ressalta que o celular facilita esse ciclo de busca por controle e certeza. Registrar algo pode oferecer um alívio momentâneo, mas essa necessidade pode se tornar um comportamento compulsivo diante de novas incertezas.
Capturando para recordar
Há uma contradição interessante no ato de fotografar: na vontade de garantir que uma experiência seja lembrada no futuro, podemos acabar perdendo a atenção ao que está acontecendo no presente.
Imagine alguém em um show mais preocupado em capturar o momento do que em realmente vivê-lo. Nesse caso, a atenção se divide entre a produção do registro e a própria experiência. Renata explica que isso pode ser problemático.
“Para formar uma memória, precisamos primeiro estar presentes e atentos. No entanto, quando a preocupação em registrar se torna excessiva, a atenção ao presente diminui”, alerta a psiquiatra.
Contudo, a fotografia também pode ser uma ferramenta poderosa para resgatar memórias. “A diferença está na forma como utilizamos a câmera. Uma boa fotografia pode ajudar a lembrar de uma experiência, mas se a preocupação em registrar se torna tão grande que impede de vivê-la, isso se torna um problema”, enfatiza.
Fotografar para perceber
Renata, que alia sua paixão pela fotografia à sua prática médica, destaca que esse ato pode enriquecer nossa observação do mundo.
“Fotografar pode ser uma forma incrível de notar detalhes, como a luz ou expressões que poderiam passar despercebidas”, observa.
A chave está na liberdade de escolha. “Posso decidir fotografar uma cena ou simplesmente optar por vivê-la. Se a pessoa sentir que não pode fazer essa escolha, é importante refletir sobre isso”, aconselha.
Um acúmulo sem significado
Um dos paradoxos da era digital é que, embora seja mais fácil do que nunca tirar fotos, muitas vezes essas imagens nunca são revisitadas.
“Hoje, acumulamos milhares de fotos, mas raramente dedicamos tempo para revê-las. Isso pode resultar em um grande banco de dados sem que as imagens se transformem em lembranças significativas”, observa.
A especialista sugere que uma abordagem mais intencional em relação às fotografias pode ser benéfica: selecionar imagens, organizar álbuns, imprimir fotos ou simplesmente compartilhá-las com amigos. “Transformar a fotografia em uma ferramenta para reconstruir histórias, em vez de um mero arquivo acumulado, é um passo importante”, afirma.
Além disso, existem memórias que vão além do visual. “Conversas, cheiros, músicas e sensações não são capturáveis por uma câmera. Estar presente também nos ajuda a registrar essas dimensões da experiência”, acrescenta.
Renata destaca que não há um número ideal de fotos que defina um comportamento saudável. O importante é encontrar um equilíbrio e perceber se existe liberdade para escolher entre registrar e viver o momento.
Quando buscar ajuda?
Fotografar em excesso não significa automaticamente que alguém esteja lidando com ansiedade ou um transtorno psicológico. O que deve acender um alerta é a combinação de sofrimento, prejuízo nas atividades diárias e a falta de liberdade para escolher. “Se a pessoa se sente angustiada ao não conseguir registrar algo, se gasta muito tempo fotografando ou organizando imagens, ou se isso causa conflitos, pode ser o momento de procurar ajuda”, orienta.
A psiquiatra também destaca um ciclo que pode passar despercebido: a fotografia, em vez de ser uma lembrança, torna-se uma estratégia para eliminar incertezas. “A pessoa, diante de uma dúvida, registra ou verifica algo para se sentir segura, experimenta um alívio momentâneo e logo em seguida sente a necessidade de repetir esse comportamento”, explica.
“A fotografia nos oferece ferramentas para lidar com incertezas do cotidiano, mas essa necessidade de controle pode nos treinar a tolerar cada vez menos a possibilidade de esquecer ou perder algo”, conclui Renata.






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